Além de ambiguidades e incertezas: o perdão pessoal

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Os descendentes de Fausto criaram o mundo moderno (e suas benesses e horrores) e por isso, não sem justificativa, comentou Rilke no início do século vinte: “não estamos muito à vontade no mundo que criamos“.
O culto ao progresso, como é usualmente chamado, incluiu, necessariamente, o avanço arrogante, o qual pagamos com esses sentimentos de mal-estar, insegurança e mau sono, e que expressam parte do movimento (sombrio) que fizemos quando nos afastamos de nosso estado natural, pois hoje estamos presos a estilos de vida e ambientes cada vez mais artificiais (ao menos muitos de nós). Assim, momento ou outro, somos levados a enfrentar nossa má-fé. E a coisa não é simples: não que sejamos culpados por sermos neuróticos, indiferentes ou absorvidos excessivamente em nós mesmos. Não é este o caso. Mas sim se somos sabedores disso e deixamos de nos empenhar para nos modificar – o que seria o esperado resultado de uma “vida examinada”.
Para tornar a situação mais delicada, o autoexame desprovido de uma ação posterior  pode ainda nos conduzir a uma via sem saída. Sim, porque pouco resolve analisar nossa cumplicidade com o mal no mundo, com o mal que nós mesmos diariamente praticamos,  caso isso não crie uma forma diferente de atuação – com nós mesmos e com os outros.
Contudo, acredito que um autoexame sincero pode realmente nos impulsionar a um movimento significativo – perdoar-se, pois sabemos que apenas o eu perdoado, acompanhado de um sincero arrependimento, fica liberado para avançar.
Quando não alcançamos o perdão pessoal, a vida (presente/futuro) é seriamente corroída pela culpa sombria, porque embora seja sempre bem-vinda a admissão honrosa do que fizemos aos outros e a nós mesmos, somente o perdão nos libera para seguir em frente.
A libertação do eu, ainda, depende, muitas vezes, de que ponhamos em prática a definição de graça de Tillich: “aceite o fato de você é aceito, apesar do fato de você ser inaceitável”.
Não podemos nos fiar em justificativas infantis, mas sim assumir as contradições que habitam nossa natureza e, por isso, viver sem arrogância, “pecado” ou ilusão é impossível. Logo, para dar conta de nos perdoar e nos liberar, podemos aceitar que em muitas circunstâncias somos o nosso pior inimigo; o que nos leva a meditar sobre a ironia da vida, pois grande parte do que fazemos é evitar nosso eu mais completo, ficando, desse modo, empacados.
E esse cuidado assíduo/ativo consigo mesmo e que pode nos levar ao perdão pessoal, ainda que não traga de imediato a libertação, ajuda-nos a resgatar a(s) possibilidade(s) de escolha consciente (ou mais consciente) no presente – e, por acréscimo, a chance de contar com um futuro mais amplo, cuja vida esteja menos constrita pelos erros e fantasmas do passado.
Dito em outros termos, o perdão pessoal tanto nos afasta da ilusão de que as escolhas sejam despidas de consequências quanto nos ajuda a admitir nossa ambiguidade moral e duplicidade pessoal e cultural (afinal, não somos uma individualidade homogênea).
A partir dessa autoaceitação honesta, deixamos de alimentar a autoinflação, passamos a nos expandir em direção à riqueza psíquicoemocional e moral, nos tornamos mais interessantes, pois mais nós mesmos.
Simplesmente paramos de querer nos apropriar das prerrogativas dos “deuses”, crendo que somos portadores de um “divino direito”, cujo legado depende de “programação imperialista” da personalidade (ego). Ademais, enquanto permanecermos presos nesta autoinflação e infantilidade, continuamente estaremos sujeitos a decepções, depressões e humilhações…
De forma inequívoca, sondar a si mesmo e perdoar-se nos ensinam a nos perceber humanos e humildes. Como efeito, conseguimos decifrar nossa natureza e ao mesmo tempo contar com uma poderosa força interior para tornar nossa realidade mais próxima ao eu pleno que somos convidados a encarnar a cada manhã. E certamente isso nos fará mais livres e mais confortáveis com nós mesmos e com os outros.

Saudações e cariños!
Eugênia Pickina

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