São Paulo, uma cidade obesa e com insuficiência renal

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O trânsito e a poluição são para o médico Paulo Saldiva os principais sintomas de uma cidade que cresceu demais e tem hoje nas ruas mais de sete milhões de veículos, que andam em uma velocidade média inferior a de cavalos.

Ao falar dos problemas de São Paulo, o médico Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em poluição atmosférica, compara a cidade a um paciente obeso, com artérias entupidas e insuficiência renal, e portador de bronquite crônica, asma e disfunção cognitiva. Apesar do diagnóstico pouco animador, ele afirma, “todo mundo sabe o que tem que fazer para resolver isso”.

Saldiva é um crítico do uso excessivo de veículos particulares na capital paulista e um entusiasta do transporte coletivo eficiente. Para ele São Paulo é uma cidade que cresceu demais, de maneira indiscriminada, mas que precisa apenas de vontade política para melhorar.

Nesta entrevista, Saldiva conversa com a jornalista Alice Marcondes, da Envolverde, sobre os impactos da poluição e do trânsito na vida do paulistano e que pode ser feito para mudar que este quadro. Confira a íntegra da conversa.

Qual o impacto que a poluição pode ter na saúde das pessoas?

O risco que a poluição traz é menor do que, por exemplo, o do cigarro. Um fumante corre muito mais risco de ter câncer. A questão é que o número de fumantes está caindo, mas a poluição a qual as pessoas estão expostas é cada vez maior. Então, embora o risco seja pequeno, o número de pessoas expostas é muito grande, principalmente pelo crescimento explosivo das cidades.

São Paulo é a cidade com os maiores índices de poluição do país. Você acredita que o governo já encara esta situação como um problema de saúde pública?

Em geral não. Se você avaliar a cidade de São Paulo, tendo como base os padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS) em relação à qualidade do ar, o que a legislação determina é mais ou menos o que se poderia determinar com um conhecimento cientifico dos anos 70, quando a maior parte do que se sabe hoje sobre poluição não existia. Morrem em São Paulo em média quatro mil pessoas por ano em consequência da poluição. Esse número é maior do que o de mortes por Aids ou tuberculose, que são temas que todo mundo considera como de saúde pública.

Como está o ar de São Paulo em relação ao padrão da OMS?

O ar de São Paulo tem 50% a mais de ozônio do que o recomendado e cerca de 250% a mais de partículas finas.

O que você acredita que precisa mudar?

São necessárias medidas um pouco mais severas, que reduzam efetivamente a poluição. Hoje em dia se você desenvolve pesquisas para a cura da Aids, você é ovacionado o ganha prêmio. Agora, se você quiser desenvolver maneiras de reduzir a poluição, não existe incentivo. São muitos interesses políticos e econômicos envolvidos.

É possível atribuir um valor econômico para os impactos gerados pela poluição?

Depende do valor que se atribui para a vida humana e para o trabalho. Existem várias maneiras de calcular. Tem a redução de expectativa de vida das pessoas, tem o trabalhador que é afastado por doença e vira despesa para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Se você considerar somente os gastos diretos do Sistema Único de Saúde (SUS) esse impacto é de algo em torno de U$ 150 milhões a U$ 200 milhões por ano, mas se você incluir os outros aspectos, esse número vai chegar U$ 1,5 bilhão por ano, que são de gastos da cidade e de dinheiro que deixa de entrar da economia.

O trânsito é o principal problema da cidade de São Paulo?

Acredito que sim, porque ele gera muito mais problemas do que somente a poluição. Ele faz as pessoas perderem tempo, provoca ruídos e reduz drasticamente a qualidade de vida. Conheço a história de muitos trabalhadores que saem de casa às cinco horas da manhã e ficam dormindo no carro, perto do local de trabalho, esperando a hora de iniciar o expediente, só para fugir do trânsito.

O último levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) apontou que a cidade de São Paulo já tem mais de sete milhões de veículos circulando. Mesmo com essa quantidade é possível solucionar o problema do trânsito e da poluição?

Sim. É preciso observar para resolver. Eu sempre costumo comparar a cidade com um paciente. Olhando nessa perspectiva o diagnóstico desse paciente seria uma pessoa obesa, porque a cidade cresceu demais, com artérias entupidas, já que nada flui direito pelas ruas, que seriam as veias, com bronquite crônica e asma, porque o ar não está legal, com insuficiência renal, uma vez que a cidade não é capaz de se livrar de todo o lixo que produz, e um certo nível de disfunção cognitiva, porque todo mundo sabe o que tem que fazer para resolver isso, mas não faz. Os remédios para todos esses problemas são conhecidos.

E quais são eles?

São Paulo precisa de corredor de ônibus e de transporte público. Precisa também fazer o adensamento da cidade. São Paulo está ficando com alguns desertos, como Moema e Itaim, que são bairros onde as pessoas não moram, só trabalham. As pessoas estão indo cada vez mais para a periferia, isso provoca problemas de mobilidade. Nós conhecemos os remédios, só falta vontade política.

Você acredita que existe uma filosofia de que o carro é mais importante do que o transporte público?

Sim, mas isso está mudando. Se você olhar o trem que vem do subúrbio, hoje ele é muito melhor do que era antigamente. Houve uma migração de mais de 200 mil pessoas, que passaram a morar na periferia e a utilizar o trem nos últimos 20 anos. Essas pessoas são de classe média e tem uma noção maior de cidadania. Por isso, os problemas que eram invisíveis, porque ninguém reclamava, passaram a ser visíveis para a maior parte da sociedade.

No caso de haver um transporte público eficiente, a população paulistana está culturalmente preparada para deixar o carro em casa e mudar o modo como se locomove na cidade?

No começo não. Mas, no momento em que você as ruas estiverem menos ocupadas por carros e mais preenchidas pelo transporte coletivo e por ciclo faixas, vai sobrar menos espaço para o carro e a eficiência do transporte público vai ser o melhor argumento para as pessoas migrarem para o transporte coletivo. Além disso, o usar o transporte coletivo faz bem para a saúde. As pessoas andam mais e isso reduz o risco de obesidade, de doenças cardiovasculares e muitas outras, o que faz cair o gasto do sistema de saúde pública.

Dos combustíveis mais usados atualmente, algum polui menos?

O etanol emite menos gases poluentes.

Na sua opinião, uma legislação que permitisse a circulação somente de veículo movidos a etanol, amenizaria o problema da poluição?

Eu acho que mais eficiente e mais barato seria você fazer faixas exclusivas para veículos com mais de uma pessoa dentro, assim como têm a de ônibus. A verdade é que existem vários remédios, mas a gente não usa nenhum.

A cidade de São Paulo está chegando no limite?

Em termos de mobilidade sim. Eu vi recentemente uma estatística da CET que dizia que entre seis e nove horas da manhã, a velocidade médias dos carros em São Paulo é de menos de 12 quilômetros por hora. Isso significa que na época dos bandeirantes, quando eles andavam em cavalos, eles andavam mais depressa do que se anda hoje.

Reduzir o volume de carros nas ruas é o único caminho viável?

Não só para São Paulo como para qualquer cidade. Como disse Enrique Peñalosa “A cidade avançada não é aquela onde os pobres andam de carro e sim aquela onde os ricos usam transporte público”.

Por Alice Marcondes

(Entrevista concedida à jornalista Alice Marcondes, da Envolverde)

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