Assédio escolar, mau reflexo da sociedade latino-americana

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Santiago, Chile, agosto/2012 – “A escola continua sendo reflexo do que acontece nas sociedades”, por isto é urgente avaliar o que está por trás dos altos índices de assédio nas escolas na América Latina, enfatizou a especialista em educação regional Marcela Román. Esta antropóloga chilena afirmou à IPS que “também devemos nos questionar e assumir como o sistema, a política educacional, está gerando e permitindo estes níveis de maus-tratos nas escolas” da região, onde mais da metade dos estudantes é vítima de algumas de suas formas.

O assédio nas escolas, conhecido por bullying, define situações de intimidação, acosso, abuso, hostilidade e vitimação que ocorrem reiteradamente entre estudantes. Insultos, apelidos, golpes, agressões diretas, roubos, ameaças, fofocas e exclusão ou isolamento social são as formas de maus-tratos mais comuns e frequentes. Contudo, ultimamente, aumentou de maneira importante o “bullying cibernético”, pelo qual se maltrata e denigre o estudante pela internet.

Román, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação da Universidade Alberto Hurtado, afirmou que a violência escolar é um grave problema em toda a América Latina, e sua erradicação é uma necessidade urgente na busca por uma escola de qualidade. O estudo América Latina: Violência entre Estudantes e Desempenho Escolar, realizado em 2011 por Román e seu colega Javier Murillo, constatou que 51,1% dos alunos da sexta série primária da região, em geral com 11 anos, sofreram roubos, insultos, ameaças ou apanharam de colegas.

Segundo a antropóloga, o assédio escolar é grave porque não está focado em um tipo de estudante, de escola ou de nível socioeconômico, mas é transversal, conforme mostra o estudo publicado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). “Às vezes, muda a forma e a prevalência”, observou Román. Uma constante, acrescentou, é que é menor nas zonas rurais, “por isso se deve analisar o que existe no urbano que desencadeia com maior facilidade ações que afetam a relação dos alunos”.

Para Román, uma característica central é que os sistemas educacionais começam a ser cada vez mais competitivos, exigindo maior êxito e provocando aberta ou implicitamente espaços de competição entre os estudantes e, por conseguinte, “menos tolerância e menos respeito e valorização pelo outro, o que torna mais fácil surgirem interações mais violentas”.

O estudo mostra que a agressão mais comum na região é o roubo (39,4% do total de casos), seguido de violência verbal (26,6%) e física (16,5%). Mas há amplas variações nos países. Na Argentina há mais casos de insultos e ameaças (34,3% do total de casos), à frente de Peru (37%), Costa Rica (33%) e Uruguai (31%). A Argentina também encabeça os casos de violência física entre colegas, com 23,5% do total, seguida de Equador (21,9%), República Dominicana (21,8%), Costa Rica (21,2%) e Nicarágua (21,2%). Cuba é o país com a menor taxa de estudantes que admitiram ter apanhado recentemente: apenas 4,4% dos entrevistados.

“Em geral, em todos os países – menos em Cuba – metade das crianças reconhecem que foram vítimas de assédio, uma porcentagem que sobe quando se pergunta se foram testemunhas. A interpretação do ponto de vista da antropologia e da psicologia é que sempre é mais fácil olhar o outro e não reconhecer que também se é vítima”, pontuou Román.

O caso do Chile ajuda a colocar os dados do estudo regional em realidades concretas e nas políticas que alguns países começaram a estabelecer diante do bullying. A Pesquisa Nacional de Convivência Escolar 2011, cujos resultados foram divulgados pelo Ministério da Educação no dia 30 de julho, revela que 10% dos estudantes da oitava série do curso básico, de 13 anos, reconhecem ter sofrido assédio e 25% desse total admitem que o sofrem diariamente.

Quem conhece muito bem essa situação é Magdalena Velázquez, cuja filha Antonia, de sete anos, foi vítima de maus-tratos reiterados em uma escola, e continuou sendo na para onde a mãe, desesperada, a transferiu. “Antonia chegava com manchas roxas nos braços. Suas colegas cobravam dinheiro ou doces para incluí-la nas brincadeiras e uma vez chegaram a arrastá-la pelo chão. Também três delas a seguraram e uma deu socos em seu estômago”, contou Magdalena à IPS. Contudo, o pior foi a resposta dos representantes das escolas quando pediu ajuda. “Para meu espanto, grande parte deles acusou minha filha de não se integrar e de levar dinheiro para a escola. A responsabilizaram pelos maus-tratos que recebia”, ressaltou a mãe.

Alan Wilkins, secretário regional do Ministério da Educação, explicou à IPS que o governo busca reduzir as agressões, que atualmente afetam 20 mil estudantes, aplicando a Política Nacional de Convivência Escolar, “que estabelece as bases para se ter uma nova compreensão da convivência”. Também foi implantado o Plano Escola Segura, que busca fortalecer nas escolas do Chile as medidas para prevenir e proteger os estudantes de todo tipo de risco, entre eles bullying, abuso sexual ou consumo de álcool e drogas.

Uma coisa que não se deve esquecer é que o bullying também tem impacto na qualidade da educação, disse à IPS a socióloga Carolina Bascuñán. Com mestrado em necessidades e direitos da infância e da adolescência, ela ressaltou que as políticas públicas são insuficientes porque aplicam estratégias para reparar o dano e não são centradas na prevenção. Um exemplo é a Lei sobre Violência Escolar, em vigor desde 2011, “criada fundamentalmente com o olhar voltado para a punição”, indicou. O problema do assédio escolar “não deve ser trabalhado apenas a partir da criança, mas a partir da comunidade educativa e da família, porque é todo este sistema que ampara e promove a violência, mas também é o que deve estar encarregado de preveni-la e erradicá-la”, opinou.

*Por Marianela Jarrou, da IPS

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