Autoconhecimento – um trabalho terapêutico

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O mar é uma coisa…
A espuma, outra;
Esquece a espuma e contempla o mar noite e dia,
Tu olhas para a ondulação da espuma e não
para o poderoso mar.
Como barcos somos jogados daqui para ali,
Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.
Ah! Tu que dormes no barco do corpo,
Tu vês a água; contempla a Água das águas!
Sob a água que tu vês há outra água que a move,
Dentro do espírito há um espírito que o chama. RUMI

O autoconhecimento é um recurso essencial a uma vida com saúde e significado. Como um trabalho terapêutico, o examinar-se tanto ajuda o indivíduo a querer a realização de sua totalidade como educa a percepção sutil de que o seu bem-estar  está conectado com o bem-estar dos outros.
O processo de conhecer-se desembaraça à pessoa o sentido profundo da existência. É a vida examinada, no aviso socrático, que impele a aventura responsável de estar-aqui-por-enquanto. E a interioridade desvendada, e assumida, alarga o campo de possibilidades para o alcance da plenitude do ser.
No geral, o compromisso com a introspecção adquire valor quando decidimos parar de nos sentir vazios ou desorientados, e receptivos ao fato de que defeitos triviais e sombrios, sob a luz suave do autoexame, pode nos levar à dignidade, dando-nos meios para substituir, através de atitudes renovadas, nossas histórias repetidas e não saudáveis, pois, ainda que penoso, vale a pena observar/transformar a personalidade.
Considerar-se como um ser inteiro, com todas dificuldades e potenciais, é uma primeira atitude assertiva. Junto a isso, investir na autotransformação gradual, aspirando à superação de si mesmo, mas sem deixar de viabilizar o crescimento pessoal, no rumo de se alcançar uma identidade diferenciada, a individuação de Jung.
Certamente a experiência de autoavaliar-se, no lugar de “encobrir-se” – e que não traz nenhuma mudança, mas sim uma frustração autoinfligida por meio da negação e da repressão -, tem o efeito direto de possibilitar à pessoa o desligamento do automatismo de hábitos e posturas infelizes, porque tanto deflagra a conscientização dos limites da existência quanto aclara o apelo espontâneo ao desenvolvimento, sem depreciar a força do companheirismo humano que existe entre almas que reverenciam, no lugar do egoísmo, “um fluxo do eu para o vós” (Martin Buber).
Na busca de si mesmo, pode o indivíduo investir na meditação, técnicas de visualização e mudança de pensamentos, liberando-se dos estratos negativos armazenados e substituindo-os por pensamentos otimistas. Mas isso depende de uma revisão constante do teor dos pensamentos e mesmo das emoções.
Assim, o trabalho com os conteúdos internos pode a) provocar a ruptura com padrões inconscientes e negativos; b) ativar o Eu Superior, inspirando-nos clareza e autoconfiança. E caso haja constância nas práticas, aos poucos o coração se abrirá, a pessoa se sentirá mais calma, imbuída de coragem e discernimento para os desafios de cada dia.
Sem dúvida, quando crescemos em autonomia, a relação com nós mesmos e com os outros ganha bondade e compaixão. E quando criamos intimidade com nosso mundo interior, conseguimos diferenciar as emoções que brotam em nós, mas sem nos perder nelas.
Infelizmente, um dos principais obstáculos que teimamos em conservar é a ilusão de que somos apenas um composto da realidade material, que somos tão-somente um corpo físico. Assim, na encalço de um trabalho terapêutico, carecemos abandonar o apego à visão materialista, porque somos seres imortais, cuja natureza abarca os aspectos reflexivo, simbólico e afetivo. Nosso destino é, de fato, uma evolução sem fim.
Em outras palavras, somos portadores dos potenciais divinos e estamos enredados ao mistério, contidos na Unidade. E caso sejamos exploradores gentis de nossa capacidade ilimitada para a comunhão com a vida, podemos cooperar com um futuro positivo e compartilhado, afirmando-nos mais e mais como um ser de bem.
Eugênia Pickina

Notas
Algumas ferramentas podem favorecer o autoconhecimento: terapia transpessoal, terapia floral, meditação, ioga, uso de diário pessoal etc.
O presente texto não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas estremecer o coração, burilar o gosto pelo autoexame. Nele reside a fonte segura do aprendizado do autoamor, promovendo o emergir de nossa (nobre) natureza compassiva. Por sermos parte de uma era de transição, a individuação pode colaborar com a construção de um “destino comum” ético e afetivo.

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3 responses to this post.

  1. Reblogged this on Transformar-se.

    Responder

    • Posted by Vera M. Perez on 26/05/2012 at 20:55

      Eugênia,mesmo “sem pretensão” como você afirma, esse texto acende muitas luzes internas em nós, que apenas bruxuleavam timidamente, mas encorajadas pelos seus dizeres muito oportunos, vão clarear nossa vontade no exercício necessário do autoexame,realmente a única forma do “eu sair em busca do vós”…..

      Responder

      • Obrigada pelo comentário precioso. Fico muito feliz pela participação carinhosa e que estimula minha própria reflexão. Volte sempre para nos visitar. Bj

        Eugênia

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