Jornada faustiana

Deve ser perturbador para o deus que lhe ama

Ponderar sobre o quão mais feliz você seria hoje

Tivesse você sido capaz de vislumbrar seus muitos futuros. (C. Dennis, The God Who Loves You)

 Como nos recorda o Hino a Deméter, “difíceis são os deuses de serem vistos pelos homens”.

O que é um “deus”? No nível semiótico, a palavra deus é “o símbolo que usamos para apontar aquilo que é realmente transcendente (…), e essencialmente desconhecível” (James Hollis).

E qual seria o problema? “O ego acha que é o Si-mesmo, e a sensibilidade religiosa acha que a imagem é o deus” (James Hollis) e, então, se abrem as trilhas para a delusão, as armadilhas e o mal viver…

É sabido: a conquista do bem viver implica a atitude oposta ao impulso cego da existência mecânica, condicionada pelas crenças/atitudes repetidas na rotina. Conheço muitas pessoas encapsuladas nas errôneas interpretações dos acontecimentos de suas vidas, embaçadas pelo desejo de segurança, que as levaram a negligenciar o mais precioso: a “opção por si mesmo”, exigente do aprendizado tanto da autodisciplina como do autossustento.

Quando a pessoa consegue relacionar-se criativamente com sua alma, descobre uma habilidade para maravilhar-se, mas desde que leve em consideração a lição final anunciada por Fausto: “conquista a existência e a liberdade/ somente quem todo dia a reconquista”.

Isto é, sem dúvida, o que Nietzsche queria dizer com sua “vontade de potência” – a decisão, difícil e iluminada, de aceitar cumprir, com responsabilidade, o próprio destino, deixando de ser o fantoche desses “deuses” (=energias psíquicas) que nos habitam.

Através do interesse para examinar e compreender a própria vida o indivíduo pode decodificar os acontecimentos passados e imediatos que o determinam…

Conheço pessoas possuídas pelo mau humor crônico. Raivosas, no lugar da opção por uma convivência leve e alegre, decidem por “fritar o fígado” à medida que se recusam ao diálogo interno com Ares, o deus da guerra, e se tornam “espontaneamente” belicosas, grosseiras na vida de relação.

Sim, é sabido… Talvez sejam precisos vários meses para que se manifestem pequenas mudanças, caso se decida pela harmonia e não pelo “estado mal-humorado”. Aqui, não se trata de duvidar que não haja na vida de cada indivíduo certo número de influências deterministas. Contudo, é preciso reconhecer que existe uma certa margem na qual o ser humano pode ter consciência do que (ou quem) o está impelindo e, com paciência, dar início a mudança, pois o essencial, no caso, é a maneira como nos relacionamos com os fatos oriundos de realidades deterministas, inerentes à nossa vida (o que fizeram conosco no prelúdio da infância, por exemplo).

O interesse sincero, então, é requisitado, pois é duvidoso que alguém recupere a saúde ou a vivacidade caso não decida ser sadio, caso não decida conscientizar-se de quem está, de fato, dirigindo sua vida: se ele mesmo ou o outro (uma Afrodite ferida, um Ares possesso).

Os obstáculos mais perigosos não são, às vezes, aqueles que melhor se vê. Podemos estar apegados a posturas e interpretações muito sutis ou distorcidas. E são esses apegos (ou possessões) que podem nos impedir de viver com liberdade e com felicidade, que não é recompensa [de uma vida virtuosa], mas sim a própria virtude, como explicou Spinoza.

O que nos faz estagnar, lançando-nos no estado de bloqueio, é quase sempre o medo; e não realizar nossa tarefa-propósito pessoal nos afastará da agenda da individuação, do vir-a-ser que contém, em semente, aquilo a que estamos destinados:

“Na primeira luz do dia tenha em mente, contra uma indisposição de sair da cama, a idéia de que: “Eu estou levantando para o trabalho do homem”. Devo me queixar por ter de fazer o que nasci para fazer, e por cujo motivo fui trazido ao mundo? É esse o motivo de minha criança ficar deitado aqui debaixo dos cobertores e me manter aquecido?

… Você não sente um amor verdadeiro por si mesmo; se sentisse, você amaria sua natureza, e a vontade de sua natureza. Artesãos que amam suas profissões puxarão a si próprios até o limite para se aprimorar ao máximo, até mesmo se lavar sem comer, mas aparentemente você não dá tanta importância à sua natureza… O serviço à comunidade tem menos valor a seus olhos, merecendo menos devoção?”(Marco Aurélio. In: Meditações, V, I).

 Eugênia Pickina – Palavra Terra

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