Paideia perene

passaro_uirapuruQuando se trata de aprender a conviver, necessitamos de uma formação integral. Na educação convencional, fortemente irrigada pela normose social, uma pessoa poderá conseguir títulos, segundo um fazer mecanicista e alienado, porém seguirá, no geral, como um analfabeto emocional, desorientado para esses tempos críticos de desalentos e massificação.

Talvez fosse necessário, com humildade e consistência,  o resgate da educação perene das antigas escolas de sabedoria, ou seja, termos a coragem de integrar nos currículos escolares (do fundamental à universidade), o compromisso com o despertar integral, o que chama as práticas da meditação, da contemplação, das artes do espírito, que complementam os saberes do corpo, segundo uma dinâmica que valorize a aliança entre a escuta e o olhar, entre o feminino e o masculino.

Sem dúvida, há um desejo profundo que habita o coração de cada ser humano: o desejo de tornar-se o Si-mesmo, isto é, desenvolver sua consciência e talentos de modo a oferecer à outridade algo novo, a singularidade da própria essência transparecendo na existência.

À medida que o saber facilita a habilidade para a passagem de conhecimentos, práticas e habilidades mais vastos, muito além das exigências do paradigma materialista do racionalismo positivista, a educação (individual e coletiva) deixa de servir apenas aos campos restritos do conhecer e do fazer, abrindo-se à ousadia do conviver e do ser…

Essa maneira de educar-se, uma paideia,  não se inclina apenas ao acúmulo, mas compreende  que não basta o abrir-se para a apreensão quantitativa das coisas, pois o grande desafio é o exercício do discernimento, precariamente desenvolvido pela proliferação das diversas disciplinas gestadas continuamente pela educação convencional moderna.

É fato: conhecemos cada vez mais e, no entanto, compreendemos cada vez menos. As funções dos especialistas não dão conta das lacunas presentes no cerne da crise contemporânea, uma crise do conhecimento do conhecimento, pois se trata de recuperar, urgentemente, um aprender a aprender

E do ponto de vista do ser e do conviver, necessitamos aprimorar, de maneira cordial e harmoniosa, razão e sentimento, sensação e intuição.

Infelizmente, o Ocidente ocupou-se em enfatizar nos últimos séculos as funções do princípio masculino – razão e sensação –, e isso em prol, sobretudo, do paradigma científico (racional e empírico), bem a gosto da lógica do capital.

Uma educação integral, então, necessariamente sugestiva à inteligência emocional, onírica e relacional, pede, por sua vez, que seja valorizada  a trilha  do sentimento e da intuição – funções do princípio feminino.

 O contexto da educação formal estimula uma sociedade competitiva, fragmentada, conduzida pela normose, pela repressão do feminino, refletindo um mundo de exclusão e de consumismo extremo, muito apropriado ao modelo newtoniano-cartesiano…

Onde aprendemos a existir? Finitude e eternidade se entrelaçam na arte de viver o cotidiano… Certezas e incertezas também estão implicadas com as lições do amor, do perdão, de uma pedagogia que deixe de nos aprisionar no sistema fechado do domínio egóico, que se alimenta do não-aprofundamento, de um contato relacional estéril, gerador do fracasso da intimidade e do ser.

Onde aprendemos a existir? Uma formação integral pode nos preparar para a compreensão que focaliza a dimensão da alma, do pessoal e do transpessoal, da convergência entre ciência e saberes milenares, entre sociedade e natureza, entre masculino e feminino, segundo o potencial humano de abrir-se à qualidade e à florescência.   

Como ninguém aprende sozinho, lembro-me, finalmente, de um poema de Pessoa:

Baste a quem baste o que lhe basta

O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta;

Ter é tardar.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

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2 responses to this post.

  1. Posted by Rosa Barros on 23/02/2010 at 10:56

    Parabéns Eugênia por suas nobres e belas palavras…nada como ler um texto profundamente enriquecedor. Maravilhoso!! E que possamos expandir e estimular a educação para a formação de um novo homem, um Homem Integral.

    Responder

  2. Posted by Eugênia Pickina on 23/02/2010 at 14:44

    Obrigada, Rosa, pelo incentivo. E que possamos, sim, promover a educação do Homem Integral… Como sempre digo, nos escritos, “saudade do futuro”. Abraços. Eugênia.

    Responder

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