Além do medo e da letargia

Faz parte do nosso conhecimento intuitivo o propósito dedicado àquilo que Jung chama de individuação, um processo que não deve ser confundido com o narcisismo ou os desejos do ego por conforto e segurança, porque associado, principalmente, com a condução de nossas potencialidades criativas, estreitamente favoráveis ao nosso equilíbrio.

Mas o que nos bloqueia são geralmente a letargia e o medo. Em uma de suas narrativas mais importantes, Jung (*) afirma:

O espírito do mal é o medo, a proibição, o antagonista que se opõe à vida que almeja a duração eterna assim como toda grande ação isolada, que instila no corpo o veneno da fraqueza e da idade por meio da traiçoeira picada de serpente; ele é toda tendência ao retrocesso, que ameaça fixar-se na mãe**, bem como dissolver e extinguir o inconsciente. Para o indivíduo heróico, o medo é um desafio e uma missão, pois só a audácia pode libertar do medo. E quando o homem não ousa, alguma coisa se rompe no sentido da vida e todo o futuro está condenado a uma mediocridade vã, a um crepúsculo iluminado só por fogos-fátuos”.  

Nenhum de nós está a salvo de momentos de medo ou letargia. A questão significativa é se esse medo, ou essa letargia, está muito presente na conduta geral de nossas vidas, afastando-se do desafio de prosseguir o caminho.

O ser humano é muito vasto e complexo. E é nesse sentido que a fixação no medo, ou na letargia, tem causado tantos danos. É significativo, desse modo, compreender as (des)razões dos medos/apegos e buscar ajuda especializada, se for o caso, para conseguir responder à escuta interior, abrindo-se sem sofrimento ao devir.

A vida sempre pede a abertura para novos experimentos e atividades. Isso dinamiza a assimilação de práticas desconhecidas e, ao mesmo tempo, possibilita a ampliação de recursos interiores, que antes permaneciam latentes. Assim, esse interesse pelo desconhecido, pela mudança, pode inspirar escolhas não somente “corretas”, mas diferentes, o que faz florescer o ser quem somos.

*JUNG, C. G. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989, vol. 5, parágrafo 398.

**A “mãe” que Jung se refere aqui é o complexo materno em sua forma genérica, ou seja, o desejo de ser cuidado e protegido e que, mesmo compreensível, resulta na recusa ou adiamento da individuação, isto é, no evitar crescer.

 Eugênia Pickina

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