Retenção de mágoa: uma via para o desequilíbrio

outonoSabemos que as lembranças não são iguais. Enquanto algumas são vagas recordações de eventos, outras nos prendem no passado. Quando ficamos magoados com alguém, as tintas escuras e densas dessa experiência nos mantêm algemados, nostalgicamente embaçados por nós energéticos, que dificultam o fluir de energias que nos harmonizam para o viver do instante presente.

Clarissa Pinkola-Estes traz em um dos seus livros um eficaz itinerário para o perdão, que é encadeado por ações que podem ser realizadas em quatro passos, conforme a possibilidade pessoal daquele que foi ferido ou ofendido:

 1) renuncie – deixe de lado;

2) contenha-se – abstenha-se de punir;

3) esqueça – afaste da lembrança, recuse-se a insistir; e

4) perdoe – abandone a dívida.

O perdão envolve mente e coração, pois a libertação da mágoa não se dá apenas no nível intelectual, mas está associada também às dimensões físico-emocional-espiritual. Com efeito, quando perdoamos, sentimos o corpo relaxado e não mais tomado pela contração: um nítido sinal de que alguma coisa se expurgou do campo individual, libertando-nos de um peso de memória que gravitava em nosso corpo como um objeto estranho e contaminado.

O crescimento da consciência é um processo de movimento espiral e envolve, no geral, paciência e um querer obstinado. Dar atenção à saúde significa cuidar da profunda aflição de que às vezes padecemos por conta do outro, que nos feriu ou nos atingiu de alguma forma pouca amorosa ou agressiva.

E, nessas horas, no lugar da retenção em um quadro de memória dolorosa, podemos assumir a responsabilidade pessoal pelo nosso equilíbrio, largamente associado à atitude do perdão reiterado (e autoperdão!). Com sabedoria, Sócrates afirmou que os seres humanos não fariam o mal se efetivamente o compreendessem como mal; se o fazem é porque não entendem realmente o bem, pois é o bem que inspira a saúde da alma.

Eugênia Pickina 

(*) Cf. PINKOLA-ESTES, Clarissa. Women who run with the wolves: myths and stories of the wild woman archetype. Nova York: Ballantine Books, 1992, p. 370. [Há a versão do livro em português]

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4 responses to this post.

  1. Eugênia, é tão difícil escrever sobre este tema como é difícil introjetar este perdão. Na verdade eu sou uma pessoa mais leve porque não costumo remoer mágoas passada, tenho realmente um coração mole, mas, como psicanalista tenho experiência em consultório: O PERDÃO como algo bem difícil de se trabalhar, como é difícil das pessoas se livrarem de suas mágoas, armaguras, andarem leves…Tem um filme que retrata bem isso, COLCHA DE RETALHOS, assita, é muito bom. Tem uma cena em que uma das atrizes lembrava sempre de algo que a irmã e o marido fizeram a ela. quando lembrava quebrava algo na casa, e com este cacos construiu uma parede de cacos, que simbolizava este não perdão, esta mágoas acumuladas. Gostei muito do seu texto. Obrigada por esta luz.

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  2. Posted by Eugênia Pickina on 09/11/2009 at 12:12

    Leila, grata pelo comentário e pela dica. E concordo: o perdão sempre é algo difícil de ser trabalhado para a maioria das pessoas, sobretudo, penso, o autoperdão… Sigamos, pois! Abraços. Eugênia.

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  3. Posted by Rosa Barros on 23/02/2010 at 21:33

    Eugênia, estou aqui novamente rsrs, este blog é tão bom que é impossível não participar. Acredito que é impossivel alguém não se magoar, a mágoa é uma das muitas emoções humanas e só não se emociona os corpos inanimados. Agora , não é interessante para o ofendido para a sua saúde perpetuar ou mesmo ignorar o fato desagradável. Acredito que perdoar não significa esquecer, fechar os olhos para as ofensas alheias. É desenvolver um sentimento em nós de compreensão e aceitação da nossa humanidade, estamos distantes, nós e os outros de agir corretamente. Acredito que o nosso maior problema em perdoar ou se auto-perdoar venha de nosso estado orgulhoso de ser.
    Um grande abraço!!!

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    • Posted by Eugênia Pickina on 24/02/2010 at 1:30

      Oi Rosa, que bom que está de volta. Fico agradecida… Sim, perdoar não significa esquecer, e sobretudo de imediato… Por isso, acredito que o perdão precisa de atenção – de tempo… E o autoperdão, como você mesma colocou, é mais difícil, pois está implicado com as nossas dificuldades e culpas. Continue a nos visitar… Um grande abraço. Eugênia.

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