Como lidar com a partida de um ente querido? Sim, porque é preciso deixar ir…
Ainda que falemos pouco sobre a morte (um tabu no Ocidente), é intrínseco ao viver o morrer, porquanto é dessa forma que passaremos do mundo relativo para o mundo absoluto.
E no momento da morte, a informação que acende os átomos e as moléculas deixa de informar o corpo – a matéria. O corpo, então, torna-se um cadáver, pois não há corpo sem alma.
Mas, a morte de um ser que nos é muito caro é seguida de tristeza, causada pela dor da separação, da ausência. “Chorarei agora”, disse a mim mesmo. “Chorarei depois”, entendi, pois este estado precisa ser vivenciado para que, depois, uma paz desconhecida habite o coração.
O tempo do luto é muito especial. É um tempo intermediário que recusa a medida do relógio porque se faz de instante que retoma o mesmo instante – um tempo redondo.
No coração, intuímos: é natural que morra a vida mortal.
Com paciência, então, talvez se abra para nós, ligado a este “tempo escuro”, um espaço de silêncio muito parecido com um longo dia do vazio – há, aqui, a impotência do querer estar visivelmente reunido ao que partiu.
Ainda, em relação àquele que faz a travessia “entre mundos” só podemos nos apoiar na certeza que além da pulsão de morte há outras leis e estas orientam a entrada para o infinito…
Culturalmente nos ensinaram a temer a morte e, igualmente, a morte de um ente querido. Entretanto, na duração dessa dor pela falta, de alguma maneira, estaremos amparados por um olhar de criança que, no Invisível, nos percorre e consome as queixas e os lamentos.
E quando a dor parar de arder, compreenderemos que o longo dia do vazio é um estado de ser, de sentir, pois não há um “fim”, mas sim a mudança para outro estado, porque é próprio da vida persistir e ela é sempre generosa e sulca em seu silêncio realidades que escapam às formas condicionadas e densas a que estamos identificados. Assim, novos encontros serão possíveis.
Então, embora a imagem do ente amado desabe aos poucos no campo mental, a saudade se manterá acesa no coração, enquanto ele, o que partiu, prosseguirá luminosamente, segundo o olhar de amor que assiste a toda criatura. Afinal, em alusão a Pessoa, morrer é só não ser visto.
Mais uma vez, atrevo-me: saudade do futuro.
Eugênia Pickina – Palavra Terra