Automóvel: abandone essa idéia

Automóvel: abandone essa idéia

A frase acima lembra, propositalmente, campanha publicitária para abandono do tabagismo. Assim como o cigarro, o automóvel traz danos à saúde pública, além de outros efeitos negativos ao meio ambiente, apresentados neste texto.

O automóvel talvez seja o maior símbolo do capitalismo e constitui o sonho de consumo da classe média. O crédito fácil e planos facilitados para o pagamento levaram, nos últimos anos, a um crescimento sem precedentes na indústria automobilística brasileira. Ocorre que os veículos em geral, e o automóvel em particular, apresentam alto custo ambiental e à saúde pública, normalmente não considerado nem pelo Governo nem pela população em geral.

Como amplamente divulgado nos últimos anos, o consumo de combustíveis fósseis é um dos responsáveis pelo aumento de determinados gases na atmosfera, os chamados gases de efeito estufa. Este efeito, por sua vez, tem sido associado por grande número de cientistas ao aquecimento global e a mudanças climáticas na Terra.

Os veículos representam parcela significativa do consumo de combustíveis fósseis, especialmente no caso do Brasil, cuja matriz energética tem grande participação de energia hidrelétrica. Para exemplificar, todo o setor de energia contribuiu com 23% das emissões brasileiras de dióxido de carbono em 1994, enquanto o subsetor de transportes participou com 9,2% e o subsetor industrial com 7,2%, ou seja, no Brasil, os veículos têm maior responsabilidade pelo efeito estufa que a produção industrial.

No entanto, o efeito de mais notória percepção talvez seja o da poluição do ar. Recente estudo realizado pelo Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo revelou que na Região Metropolitana de São Paulo a poluição causada pelos veículos mata indiretamente, em média, vinte pessoas por dia. As principais doenças agravadas pela poluição são enfarto, acidente vascular cerebral, pneumonia, asma e câncer de pulmão. Ainda de acordo com a pesquisa, que utilizou parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a probabilidade de uma pessoa morrer de doença cardiorrespiratória nos 39 Municípios da Região Metropolitana é atualmente de 10,9%, ao passo que, sem as emissões veiculares, cairia para 2,4%. O estudo estima, além disso, que a poluição também seja responsável por mais de treze mil internações por ano, representando custos da ordem de trezentos milhões de reais!

Outras seis regiões metropolitanas abordadas pelo citado estudo (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife) também apresentaram níveis de poluentes no ar acima do limite recomendado pela OMS, que é de 10 microgramas de poluentes por metro cúbico de ar.

Pesquisa da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) confirma que as emissões geradas por veículos automotores constituem a principal parcela das emissões de gases para a atmosfera nas áreas urbanas. Conforme o Relatório de Qualidade do Ar no Estado de São Paulo de 2008, da Cetesb, há cerca de duas mil indústrias de alto potencial poluidor e uma frota registrada de aproximadamente 9,2 milhões de veículos na Região Metropolitana de São Paulo, responsáveis pela emissão anual para a atmosfera de 1,56 milhão de toneladas de monóxido de carbono, 387 mil toneladas de hidrocarbonetos, 367 mil toneladas de óxidos de nitrogênio, 62,3 mil toneladas de material particulado e 25,5 mil de óxidos de enxofre. Desses totais, os veículos são responsáveis por 98% das emissões de monóxido de carbono, 97% de hidrocarbonetos, 96% de óxidos de nitrogênio, 40% de material particulado e 33% de óxidos de enxofre.

As razões acima indicadas são suficientes o bastante para que, ao menos, se adotem medidas de restrição ao uso do automóvel, uma vez que abolir completamente o seu uso não  é realista. Preferir caminhadas a pé ou bicicleta e adotar o transporte solidário, por exemplo, são ações que ajudam, mas é evidente que tal mudança exige não apenas desejos e atitudes individuais, como também aprimoramento das políticas de transporte público. Sobre esse aspecto, é interessante observar que diversas alternativas podem ser usadas, mesmo em cidades antigas, como as apresentadas na página “Carfree Cities” (http://www.carfree.com/). Nossas cidades, onde o transporte público é de péssima qualidade, com raras exceções, deveriam começar a aderir a novas formas de planejamento urbano. Cabe a nós, cidadãos, cobrar de nossos administradores essa postura.

Por Ilidia Juras

Jornada faustiana

Deve ser perturbador para o deus que lhe ama

Ponderar sobre o quão mais feliz você seria hoje

Tivesse você sido capaz de vislumbrar seus muitos futuros. (C. Dennis, The God Who Loves You)

 Como nos recorda o Hino a Deméter, “difíceis são os deuses de serem vistos pelos homens”.

O que é um “deus”? No nível semiótico, a palavra deus é “o símbolo que usamos para apontar aquilo que é realmente transcendente (…), e essencialmente desconhecível” (James Hollis).

E qual seria o problema? “O ego acha que é o Si-mesmo, e a sensibilidade religiosa acha que a imagem é o deus” (James Hollis) e, então, se abrem as trilhas para a delusão, as armadilhas e o mal viver…

É sabido: a conquista do bem viver implica a atitude oposta ao impulso cego da existência mecânica, condicionada pelas crenças/atitudes repetidas na rotina. Conheço muitas pessoas encapsuladas nas errôneas interpretações dos acontecimentos de suas vidas, embaçadas pelo desejo de segurança, que as levaram a negligenciar o mais precioso: a “opção por si mesmo”, exigente do aprendizado tanto da autodisciplina como do autossustento.

Quando a pessoa consegue relacionar-se criativamente com sua alma, descobre uma habilidade para maravilhar-se, mas desde que leve em consideração a lição final anunciada por Fausto: “conquista a existência e a liberdade/ somente quem todo dia a reconquista”.

Isto é, sem dúvida, o que Nietzsche queria dizer com sua “vontade de potência” – a decisão, difícil e iluminada, de aceitar cumprir, com responsabilidade, o próprio destino, deixando de ser o fantoche desses “deuses” (=energias psíquicas) que nos habitam.

Através do interesse para examinar e compreender a própria vida o indivíduo pode decodificar os acontecimentos passados e imediatos que o determinam…

Conheço pessoas possuídas pelo mau humor crônico. Raivosas, no lugar da opção por uma convivência leve e alegre, decidem por “fritar o fígado” à medida que se recusam ao diálogo interno com Ares, o deus da guerra, e se tornam “espontaneamente” belicosas, grosseiras na vida de relação.

Sim, é sabido… Talvez sejam precisos vários meses para que se manifestem pequenas mudanças, caso se decida pela harmonia e não pelo “estado mal-humorado”. Aqui, não se trata de duvidar que não haja na vida de cada indivíduo certo número de influências deterministas. Contudo, é preciso reconhecer que existe uma certa margem na qual o ser humano pode ter consciência do que (ou quem) o está impelindo e, com paciência, dar início a mudança, pois o essencial, no caso, é a maneira como nos relacionamos com os fatos oriundos de realidades deterministas, inerentes à nossa vida (o que fizeram conosco no prelúdio da infância, por exemplo).

O interesse sincero, então, é requisitado, pois é duvidoso que alguém recupere a saúde ou a vivacidade caso não decida ser sadio, caso não decida conscientizar-se de quem está, de fato, dirigindo sua vida: se ele mesmo ou o outro (uma Afrodite ferida, um Ares possesso).

Os obstáculos mais perigosos não são, às vezes, aqueles que melhor se vê. Podemos estar apegados a posturas e interpretações muito sutis ou distorcidas. E são esses apegos (ou possessões) que podem nos impedir de viver com liberdade e com felicidade, que não é recompensa [de uma vida virtuosa], mas sim a própria virtude, como explicou Spinoza.

O que nos faz estagnar, lançando-nos no estado de bloqueio, é quase sempre o medo; e não realizar nossa tarefa-propósito pessoal nos afastará da agenda da individuação, do vir-a-ser que contém, em semente, aquilo a que estamos destinados:

“Na primeira luz do dia tenha em mente, contra uma indisposição de sair da cama, a idéia de que: “Eu estou levantando para o trabalho do homem”. Devo me queixar por ter de fazer o que nasci para fazer, e por cujo motivo fui trazido ao mundo? É esse o motivo de minha criança ficar deitado aqui debaixo dos cobertores e me manter aquecido?

… Você não sente um amor verdadeiro por si mesmo; se sentisse, você amaria sua natureza, e a vontade de sua natureza. Artesãos que amam suas profissões puxarão a si próprios até o limite para se aprimorar ao máximo, até mesmo se lavar sem comer, mas aparentemente você não dá tanta importância à sua natureza… O serviço à comunidade tem menos valor a seus olhos, merecendo menos devoção?”(Marco Aurélio. In: Meditações, V, I).

 Eugênia Pickina – Palavra Terra

sobre o partir

Como lidar com a partida de um ente querido? Sim, porque é preciso deixar ir…

Ainda que falemos pouco sobre a morte (um tabu no Ocidente), é intrínseco ao viver o morrer, porquanto é dessa forma que passaremos do mundo relativo para o mundo absoluto.

E no momento da morte, a informação que acende os átomos e as moléculas deixa de informar o corpo – a matéria. O corpo, então, torna-se um cadáver, pois não há corpo sem alma.

Mas, a morte de um ser que nos é muito caro é seguida de tristeza, causada pela dor da separação, da ausência. “Chorarei agora”, disse a mim mesmo. “Chorarei depois”, entendi, pois este estado precisa ser vivenciado para que, depois, uma paz desconhecida habite o coração.

O tempo do luto é muito especial. É um tempo intermediário que recusa a medida do relógio porque se faz de instante que retoma o mesmo instante – um tempo redondo.

No coração, intuímos: é natural que morra a vida mortal.

Com paciência, então, talvez se abra para nós, ligado a este “tempo escuro”, um espaço de silêncio muito parecido com um longo dia do vazio – há, aqui, a impotência do querer estar visivelmente reunido ao que partiu.

Ainda, em relação àquele que faz a travessia “entre mundos” só podemos nos apoiar na certeza que além da pulsão de morte há outras leis e estas orientam a entrada para o infinito

Culturalmente nos ensinaram a temer a morte e, igualmente, a morte de um ente querido. Entretanto, na duração dessa dor pela falta, de alguma maneira, estaremos amparados por um olhar de criança que, no Invisível, nos percorre e consome as queixas e os lamentos.

E quando a dor parar de arder, compreenderemos que o longo dia do vazio é um estado de ser, de sentir, pois não há um “fim”, mas sim a mudança para outro estado, porque é próprio da vida persistir e ela é sempre generosa e sulca em seu silêncio realidades que escapam às formas condicionadas e densas a que estamos identificados. Assim, novos encontros serão possíveis. 

Então, embora a imagem do ente amado desabe aos poucos no campo mental, a saudade se manterá acesa no coração, enquanto ele, o que partiu, prosseguirá luminosamente, segundo o olhar de amor que assiste a toda criatura. Afinal, em alusão a Pessoa, morrer é só não ser visto.

Mais uma vez, atrevo-me: saudade do futuro.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

 

Paideia perene

passaro_uirapuruQuando se trata de aprender a conviver, necessitamos de uma formação integral. Na educação convencional, fortemente irrigada pela normose social, uma pessoa poderá conseguir títulos, segundo um fazer mecanicista e alienado, porém seguirá, no geral, como um analfabeto emocional, desorientado para esses tempos críticos de desalentos e massificação.

Talvez fosse necessário, com humildade e consistência,  o resgate da educação perene das antigas escolas de sabedoria, ou seja, termos a coragem de integrar nos currículos escolares (do fundamental à universidade), o compromisso com o despertar integral, o que chama as práticas da meditação, da contemplação, das artes do espírito, que complementam os saberes do corpo, segundo uma dinâmica que valorize a aliança entre a escuta e o olhar, entre o feminino e o masculino.

Sem dúvida, há um desejo profundo que habita o coração de cada ser humano: o desejo de tornar-se o Si-mesmo, isto é, desenvolver sua consciência e talentos de modo a oferecer à outridade algo novo, a singularidade da própria essência transparecendo na existência.

À medida que o saber facilita a habilidade para a passagem de conhecimentos, práticas e habilidades mais vastos, muito além das exigências do paradigma materialista do racionalismo positivista, a educação (individual e coletiva) deixa de servir apenas aos campos restritos do conhecer e do fazer, abrindo-se à ousadia do conviver e do ser…

Essa maneira de educar-se, uma paideia,  não se inclina apenas ao acúmulo, mas compreende  que não basta o abrir-se para a apreensão quantitativa das coisas, pois o grande desafio é o exercício do discernimento, precariamente desenvolvido pela proliferação das diversas disciplinas gestadas continuamente pela educação convencional moderna.

É fato: conhecemos cada vez mais e, no entanto, compreendemos cada vez menos. As funções dos especialistas não dão conta das lacunas presentes no cerne da crise contemporânea, uma crise do conhecimento do conhecimento, pois se trata de recuperar, urgentemente, um aprender a aprender

E do ponto de vista do ser e do conviver, necessitamos aprimorar, de maneira cordial e harmoniosa, razão e sentimento, sensação e intuição.

Infelizmente, o Ocidente ocupou-se em enfatizar nos últimos séculos as funções do princípio masculino – razão e sensação –, e isso em prol, sobretudo, do paradigma científico (racional e empírico), bem a gosto da lógica do capital.

Uma educação integral, então, necessariamente sugestiva à inteligência emocional, onírica e relacional, pede, por sua vez, que seja valorizada  a trilha  do sentimento e da intuição – funções do princípio feminino.

 O contexto da educação formal estimula uma sociedade competitiva, fragmentada, conduzida pela normose, pela repressão do feminino, refletindo um mundo de exclusão e de consumismo extremo, muito apropriado ao modelo newtoniano-cartesiano…

Onde aprendemos a existir? Finitude e eternidade se entrelaçam na arte de viver o cotidiano… Certezas e incertezas também estão implicadas com as lições do amor, do perdão, de uma pedagogia que deixe de nos aprisionar no sistema fechado do domínio egóico, que se alimenta do não-aprofundamento, de um contato relacional estéril, gerador do fracasso da intimidade e do ser.

Onde aprendemos a existir? Uma formação integral pode nos preparar para a compreensão que focaliza a dimensão da alma, do pessoal e do transpessoal, da convergência entre ciência e saberes milenares, entre sociedade e natureza, entre masculino e feminino, segundo o potencial humano de abrir-se à qualidade e à florescência.   

Como ninguém aprende sozinho, lembro-me, finalmente, de um poema de Pessoa:

Baste a quem baste o que lhe basta

O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta;

Ter é tardar.

Eugênia Pickina – Palavra Terra

A Doença como Caminho

Muita distorção tem sido feita em relação a este conceito “da doença como caminho”. Estas distorções, mais uma vez, refletem a uma interpretação mecanicista de um conceito ampliado e holístico. Tudo que uma pessoa doente não precisa é ouvir de alguém uma interpretação superficial e reducionista da possível causa psicológica de sua doença. Principalmente se  a sua enfermidade  é crônica e de difícil tratamento.

Soa como uma condenação, como uma acusação e induz à culpa. Não se pode mexer na dor de alguém sem muito amor e acolhimento.

Há muitos sentimentos envolvendo o estar doente, e principalmente quando  se  trata de uma patologia complexa e de difícil tratamento. Na verdade, simplificar uma situação,  qualquer que seja, com explicações superficiais, torna-se, muitas vezes, um ato de crueldade e insensibilidade com a dor do outro.

O conceito esboçado no livro “A Doença como Caminho” é um dos mais revolucionários em relação ao tema saúde e doenças. Ajuda ao doente a encontrar um significado para seu estado, a trazer um significado para um fator comum e recorrente na vida das pessoas: a doença, as enfermidades.  Isto porque leva em consideração que mente e corpo formam uma unidade, afinal o que ocorre com o corpo reflete aquilo  que se passa na mente.

A psiconeuroimunoendocrinologia confirma e explica esta  ligação estreita entre corpo e mente. As pesquisas sobre os fatores de estresse, ligadas a neurociências, também confirmam esta ligação.

A tentativa de catalogar e correlacionar doenças e sintomas a estados mentais e emocionais é sem duvida útil, mas não pode ser usada como manual para prescrever uma análise psicossomática. Os manuais são somente guias e indicações a serem refletidos. Carecem de profundidade e não trazem uma contextualização ao achado clínico. Ninguém “cria” um estado de enfermidade porque quer conscientemente isto, a não ser que isto faça parte de um transtorno mental.

O processo de somatização ocorre inconscientemente e está ligado a um contexto e a uma história de vida. Trazer para a consciência esta correlação gera impacto, surpresa e, às vezes, muita dor. Se o individuo não estiver maduro para entrar em contato com esta realidade, o comum é cair na culpa e auto-recriminação.

Neste caso o que deveria ser um fator de libertação acaba se tornado um fator de aprisionamento e agravamento do estado do paciente.

Já basta a dor de estar doente e a falta de esperança que, muitas vezes, acompanha a doença. Não é necessário ainda mais este peso e esta culpa.

Por isso, é preciso cuidado. O indivíduo enfermo pode ser acompanhado nesta reflexão e auxiliado nesta descoberta, porém ela deve ser  feita por ele mesmo.

Se esta correlação entre sintomas físicos e estado mental não surge espontaneamente  como um insight, o médico, psicólogo ou profissional de saúde precisa de ser cauteloso ao sugerir alguma possibilidade, no sentido de permitir que o indivíduo enfermo negue, caso  não sinta  como verdadeiro para ele.

Este processo de descoberta compartilhada só pode ser realizado por um profissional de saúde habilitado para tal.  Caso contrário, o profissional corre o risco de se tornar não um agente de crescimento e significação, mas um complicador.

Para lidarmos com a dor do outro temos que ser sensíveis e profundamente humanos. Se assim não for, ao invés de agirmos como uma pinça que afasta os tecidos inflamados, movendo o agente da dor, agiremos como um bisturi que corta, insensível, um tecido já comprometido.

Por Flávio Vervloet

Medicina Integrativa

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Uma abordagem que considera o indivíduo por inteiro e associa mais de um método terapêutico

A união da medicina convencional com algumas terapias alternativas gerou o que se define por medicina integrativa.  Trata-se de uma abordagem que leva em consideração o indivíduo em seus aspectos não apenas físico e emocional, mas também existencial.   Esta nova  maneira de cuidar do indivíduo visa ampliar as possibilidades de tratamento e se revela uma tendência:  cresce o número de especialistas que incluem em sua prática técnicas complementares ao lidar com seus pacientes.    Está se tornando cada vez mais comum  cardiologistas, por exemplo,  promoverem ou indicarem grupos de meditação para seus pacientes, como forma  destes lidarem com o estresse e buscar  melhor qualidade de vida, o que ajuda na prevenção de  doenças ou   mesmo em casos de  recuperação.  Alguns gastroenterologistas adotam abordagens psicossomáticas em seus tratamentos e alguns cirurgiões se utilizam da hipnose e do biofeedback (método de treinamento psicofisiológico por meio de equipamentos eletrônicos).

Segundo o médico Flávio Vervloet, que atua na área de homeopatia e medicina integrativa, essa abordagem, ainda é mais comum nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, porém começa a tomar importância também no Brasil. A medicina integrativa não menospreza o físico, em detrimento de aspectos emocionais ou espirituais, apenas não os deixa de fora.  O médico, com esta abordagem, atua da forma mais convencional possível no que diz respeito aos conhecimentos  adquiridos em sua formação, apenas não deixa de levar em conta outras técnicas que possam complementar  o tratamento adotado, otimizando resultados.

De acordo com Vervloet,  pesquisas na área psiconeuroimunoendrocrinologia, por exemplo, apontam caminhos que devem ser considerados por  profissionais da saúde, ampliando a visão relativa a várias questões que envolvem o tratamento de um paciente. “A psiconeuroimunoendrocrinologia é uma nova visão da ciência atual, que estuda a interação da consciência (psique), do sistema nervoso, das defesas do organismo (imunologia) e do sistema endócrino. Ela surgiu como conseqüência da necessidade da interdisciplinaridade tanto no diagnóstico como no tratamento das diversas situações patológicas”, explica.  Segundo ele, os estudos nessa área comprovam o que alguns de nós já arriscávamos a afirmar: não existe “separação” entre corpo e mente.

O grande diferencial da medicina integrativa é considerar esses aspectos e, neste sentido, entender a saúde num contexto amplo. Assim, de acordo com esta visão, saúde não é somente ausência de sintomas ou bem-estar físico. “Saúde, em sua expressão mais ampla, significa bem-estar integral de corpo, mente e espírito, bem como o equilíbrio entre o indivíduo e o meio em que ele vive”, explica o médico. Isto equivale dizer que a saúde implica uma aquisição progressiva e esforço e cuidado para adquiri-la e mantê-la.     E o papel do médico, mais que tratar doenças, é promover a saúde.  No entanto, apesar de seu papel fundamental, ele é apenas um facilitador. O indivíduo precisa conscientizar-se de sua responsabilidade na manutenção de sua saúde.

Por Jossânia Veloso

Gaiola dos belos: um culto à beleza das máscaras

tree_lightHá um culto narcisista de uma beleza exclusivamente exterior que permeia a sociedade contemporânea, infligindo danos e sofrimentos.

Não é de hoje que somos submetidos a padrões estéticos predefinidos e, sem trégua, proliferam clínicas de estética e tratamentos “antiestria”, “anticelulite”, “antiidade”, como se envelhecer não fosse simplesmente “passar”…

Sem dúvida, a vaidade e o cuidado com a saúde são temas importantes da vida, mas isso se torna um problema quando há uma supervalorização desses aspectos.

Não é raro que esse excesso de zelo com a beleza esteja a serviço de determinada evitação da realidade ou de sentimentos de frustração, dificuldades, inseguranças, feridas profundas e dores reprimidas, ignoradas.

Basta notarmos a incidência cada vez maior e mais precoce do número de casos de transtornos alimentares e depressões. Sabemos, por exemplo, que a aneroxia é algo muito presente, atingindo mulheres e homens, sobretudo adolescentes, e isso para estarem de acordo com um padrão estético propagado e que não respeita a individualidade e a pluralidade.

É nítido que, se essas patologias têm como causa dificuldades internas muito profundas, e fortemente nutridas pela normose da estética, que, aqui, chamarei “gaiola dos belos”.

Fico pensando o quanto a padronização desses atributos externos está enraizada em nossa consciência. Desse modo, nos privamos de olhar para o que realmente importa: a beleza original e que transparece na nossa aparência, revelando a singularidade da presença do Ser que habita cada um de nós!

Afinal, o que é a beleza? Sob o ponto de vista dos helenos não havia beleza cindida da verdade e da bondade.

Mas, os contos de fadas, em geral, mostram como ideal do modelo feminino princesas loiras, magras, passivas, cujo único objetivo é encontrar um lindo príncipe encantado, o ideal do modelo masculino, alguém forte, corajoso, astuto, viril, cortês etc.

E as bruxas? São más porque são feias, são feias porque são más…

Há um vetor de mudança no Ocidente?

Uma dica: Shrek (2001) – o filme  – é uma metáfora enraizada na complexidade e na visão sistêmica, pois resgata, no lugar da beleza das máscaras, a beleza expressada na multiplicidade da natureza humana e nos convida a perguntar: o que é belo? O que é feio? E se os inquisidores do mundo da moda tentarão nos impor “o bonito” e “o feio”, essa estória nos ajuda a nos desprender da padronização que nos mantêm cativos nessa “gaiola dos belos”.  

Fiona é uma princesa que carrega uma dupla natureza: é uma “princesa” e uma “ogra”. Mas, crê que sua real identidade é a de “princesa”. O ogro Shrek, por sua vez, nega sua natureza de “príncipe”, pois, aparentemente, é feio, rude e habita em um pântano. Ocorre que ambos se apaixonam e vão descobrindo a beleza de ser quem se é realmente, segundo a saudável mistura de “sombra e luz”, “princesa-e-ogra”, “príncipe-e-ogro”…

Shrek – o filme – aborda a beleza de um novo ângulo, porque considera o elo entre beleza, bondade e verdade. Por isso, reflete também sobre um novo feminino – determinado, ativo, e um novo masculino – dócil e bondoso, redesenhando as ideias sobre amor, amizade, e, sobretudo, revelando a possibilidade de se conviver com as diferenças sem o peso dos padrões estéticos, um nítido convite à consciência de alteridade e à beleza original, que faz de cada ser humano um “modelo” único.

 Eugênia Pickina – Palavra Terra

Algumas ideias sobre a Medicina Antroposófica

colo_skyA Medicina Antroposófica, enraizada numa visão sistêmica, procura resgatar o ser humano no contexto de sua totalidade, valorizando sua vida psíquica e sua individualidade: corpo, alma e espírito – instâncias que estão em permanente movimento e interação com o mundo interior e  com o mundo externo.

Essa Medicina não é apenas uma especialidade médica, mas, principalmente, uma ampliação da Medicina Acadêmica (Modelo Biomédico), pois, ao ter como princípio o conceito do ser humano como um ser corpóreo, anímico e espiritual, desenvolve uma nova racionalidade, abrindo-se a uma prática artística e integrada, porquanto atende o indivíduo compreendido em suas diversas dimensões.

Os fundamentos da Medicina Antroposófica surgiram na Europa, no início do século XX, impulsionados pelo trabalho conjunto de um grupo de médicos, mas  liderados pela médica Ita Wegman e pelo pensador Rudolf Steiner, cujo legado teórico define as bases da Antroposofia (anthropos = homem, sofia = sabedoria), também denominada Ciência Espiritual.

Os estudos de Rudolf Steiner são largamente inspirados pela pesquisa de Goethe, que lhe chamou a atenção para existência das formas arquetípicas nos reinos da natureza, fornecendo a ampliação da própria noção de cosmos, colhida, por exemplo, na teoria das cores e nos estudos sobre a metamorfose das plantas do cientista-poeta alemão.

Assim, cada elemento, substância, ser vivo e criatura sobre a face da Terra faz parte de um único organismo, de um todo interdependente e integrado. Desse modo, o ser humano é considerado uma imagem condensada desse cosmos, um microcosmo em contínua cadência com o macrocosmo.

À luz da Antroposofia, o ser humano é apresentado como portador de quatro estruturas essenciais, convencionalmente chamadas de “corpos”. Uma analogia pode ser feita tanto com os quatro reinos da natureza como também pelos quatro elementos alquímicos fundamentais:

1. corpo físico – é a estrutura sólida, substancial, existente em diversas formas em todos os reinos da natureza (mineral, terra); 2. corpo vital ou etérico – é o fundamento da vida, das características puramente vegetativas (crescimento, regeneração e reprodução), presentes em todos os organismos vivos (vegetal, água); 3. corpo anímico ou astral – é o fundamento da organização sensitiva do homem. Ele reordena os processos biológicos, permitindo a aparição do sistema nervoso e da vida psíquica no mundo animal e no ser humano (animal, anima, alma, ar); 4. organização do Eu – é a organização própria do ser humano, considerada como nossa entidade espiritual e responsável pela autoconsciência, reorganizando as atuações dos outros três corpos. Sua presença determina o surgimento do andar ereto e das capacidades de falar e pensar. Está relacionada com o calor no âmbito do organismo (espírito, calor, fogo).

O diagnóstico em Medicina Antroposófica, dessa forma, abarca, além da anamnese, do exame clínico e dos exames complementares, a pesquisa das estruturas não sensíveis da natureza humana (corpo vital, corpo anímico e organização do Eu), por meio de metodologia própria, inspirada no estudo fenomenológico do modelo vivo saudável.

E, por isso, essa terapêutica envolve o uso de medicamentos específicos, procedentes de substâncias dos reinos mineral, vegetal e animal, utilizados de acordo com processos farmacêuticos singulares de diluição e dinamização, além de terapias complementares, tais como: terapia artística, musicoterapia,  entre outras.

No Brasil, a Medicina Antroposófica foi reconhecida como prática médica em 1993, pelo Conselho Federal de Medicina. Hoje existem iniciativas em vários Estados brasileiros, destacando-se o trabalho médico-social na Favela Monte Azul em São Paulo e a presença oficial na rede pública de saúde em Belo Horizonte (MG).

Referência: Arte Médica – SBMA – Sociedade Brasileira de Médicos Antroposóficos. Ano I, número 1, dezembro de 2000.

Para saber mais, conheça o site da SBMA: www.medicinaantroposofica.com.br

Eugênia Pickina – Palavra Terra

Além do medo e da letargia

Faz parte do nosso conhecimento intuitivo o propósito dedicado àquilo que Jung chama de individuação, um processo que não deve ser confundido com o narcisismo ou os desejos do ego por conforto e segurança, porque associado, principalmente, com a condução de nossas potencialidades criativas, estreitamente favoráveis ao nosso equilíbrio.

Mas o que nos bloqueia são geralmente a letargia e o medo. Em uma de suas narrativas mais importantes, Jung (*) afirma:

O espírito do mal é o medo, a proibição, o antagonista que se opõe à vida que almeja a duração eterna assim como toda grande ação isolada, que instila no corpo o veneno da fraqueza e da idade por meio da traiçoeira picada de serpente; ele é toda tendência ao retrocesso, que ameaça fixar-se na mãe**, bem como dissolver e extinguir o inconsciente. Para o indivíduo heróico, o medo é um desafio e uma missão, pois só a audácia pode libertar do medo. E quando o homem não ousa, alguma coisa se rompe no sentido da vida e todo o futuro está condenado a uma mediocridade vã, a um crepúsculo iluminado só por fogos-fátuos”.  

Nenhum de nós está a salvo de momentos de medo ou letargia. A questão significativa é se esse medo, ou essa letargia, está muito presente na conduta geral de nossas vidas, afastando-se do desafio de prosseguir o caminho.

O ser humano é muito vasto e complexo. E é nesse sentido que a fixação no medo, ou na letargia, tem causado tantos danos. É significativo, desse modo, compreender as (des)razões dos medos/apegos e buscar ajuda especializada, se for o caso, para conseguir responder à escuta interior, abrindo-se sem sofrimento ao devir.

A vida sempre pede a abertura para novos experimentos e atividades. Isso dinamiza a assimilação de práticas desconhecidas e, ao mesmo tempo, possibilita a ampliação de recursos interiores, que antes permaneciam latentes. Assim, esse interesse pelo desconhecido, pela mudança, pode inspirar escolhas não somente “corretas”, mas diferentes, o que faz florescer o ser quem somos.

*JUNG, C. G. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989, vol. 5, parágrafo 398.

**A “mãe” que Jung se refere aqui é o complexo materno em sua forma genérica, ou seja, o desejo de ser cuidado e protegido e que, mesmo compreensível, resulta na recusa ou adiamento da individuação, isto é, no evitar crescer.

 Eugênia Pickina

Retenção de mágoa: uma via para o desequilíbrio

outonoSabemos que as lembranças não são iguais. Enquanto algumas são vagas recordações de eventos, outras nos prendem no passado. Quando ficamos magoados com alguém, as tintas escuras e densas dessa experiência nos mantêm algemados, nostalgicamente embaçados por nós energéticos, que dificultam o fluir de energias que nos harmonizam para o viver do instante presente.

Clarissa Pinkola-Estes traz em um dos seus livros um eficaz itinerário para o perdão, que é encadeado por ações que podem ser realizadas em quatro passos, conforme a possibilidade pessoal daquele que foi ferido ou ofendido:

 1) renuncie – deixe de lado;

2) contenha-se – abstenha-se de punir;

3) esqueça – afaste da lembrança, recuse-se a insistir; e

4) perdoe – abandone a dívida.

O perdão envolve mente e coração, pois a libertação da mágoa não se dá apenas no nível intelectual, mas está associada também às dimensões físico-emocional-espiritual. Com efeito, quando perdoamos, sentimos o corpo relaxado e não mais tomado pela contração: um nítido sinal de que alguma coisa se expurgou do campo individual, libertando-nos de um peso de memória que gravitava em nosso corpo como um objeto estranho e contaminado.

O crescimento da consciência é um processo de movimento espiral e envolve, no geral, paciência e um querer obstinado. Dar atenção à saúde significa cuidar da profunda aflição de que às vezes padecemos por conta do outro, que nos feriu ou nos atingiu de alguma forma pouca amorosa ou agressiva.

E, nessas horas, no lugar da retenção em um quadro de memória dolorosa, podemos assumir a responsabilidade pessoal pelo nosso equilíbrio, largamente associado à atitude do perdão reiterado (e autoperdão!). Com sabedoria, Sócrates afirmou que os seres humanos não fariam o mal se efetivamente o compreendessem como mal; se o fazem é porque não entendem realmente o bem, pois é o bem que inspira a saúde da alma.

Eugênia Pickina 

(*) Cf. PINKOLA-ESTES, Clarissa. Women who run with the wolves: myths and stories of the wild woman archetype. Nova York: Ballantine Books, 1992, p. 370. [Há a versão do livro em português]

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